Wayfinding hospitalar determina, em boa parte, o nível de estresse que pacientes e visitantes sentem ao circular por um hospital de grande porte. A pesquisa conduzida por Jean Wineman Carpman, Myron Grant e Walter Simmons, na Universidade de Michigan, chegou a um resultado revelador. Uma parcela expressiva dos visitantes hospitalares relata se perder ao menos uma vez durante a visita. Esse achado, publicado no livro “Design That Cares: Planning Health Facilities for Patients and Visitors”, tornou-se referência para o campo da Arquitetura Baseada em Evidências.
Diante desse cenário, o desafio deixa de ser apenas estético e passa a ser funcional. Afinal, um hospital de grande porte reúne fluxos de pacientes, acompanhantes, equipes clínicas e serviços de apoio na mesma edificação. Portanto, a legibilidade desse conjunto de percursos afeta diretamente a experiência de quem já chega ao ambiente hospitalar em um momento de vulnerabilidade.
Wayfinding hospitalar como resposta ao estresse do percurso
O termo wayfinding descreve a capacidade de uma pessoa se orientar e chegar a um destino dentro de um ambiente construído. Em hospitais, essa capacidade concorre com um fator adicional: o estado emocional de quem está se deslocando. Roger Ulrich, em sua revisão sobre desenho hospitalar baseado em evidências, chega a uma conclusão direta. Segundo ele, o esforço cognitivo de se orientar em ambientes confusos soma-se ao estresse já presente em uma visita hospitalar.
Nesse sentido, um hospital com wayfinding malresolvido não apenas atrasa a chegada ao destino. Ele também consome energia emocional que o paciente ou o acompanhante precisaria reservar para lidar com a própria situação de saúde. Por isso, tratar a orientação espacial como parte do cuidado, e não como detalhe operacional, faz diferença real. Essa escolha muda a forma como o projeto arquitetônico deve abordar o problema.
Kevin Lynch, Romedi Passini e a legibilidade do espaço hospitalar
O urbanista Kevin Lynch, em “A Imagem da Cidade”, publicado em 1960, propôs cinco elementos que tornam um ambiente legível. São eles: vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos referenciais. Embora sua pesquisa tenha nascido da observação de cidades, esses mesmos elementos aparecem em escala reduzida dentro de um hospital de grande porte. Ali, eles tomam a forma de corredores, alas, núcleos de circulação e pontos de referência visual.
O pesquisador Romedi Passini aprofundou essa lógica especificamente para edificações, em “Wayfinding in Architecture”, publicado em 1984. Passini argumenta que a orientação espacial depende de três processos simultâneos. A pessoa precisa entender onde está, decidir para onde ir e executar essa decisão ao longo do trajeto. Assim, um projeto que falha em qualquer uma dessas etapas compromete o wayfinding hospitalar como um todo, mesmo com sinalização abundante.
Mais tarde, em parceria com o designer Paul Arthur, Passini expandiu esses princípios no livro “Wayfinding: People, Signs, and Architecture”, de 1992. A obra reforça um ponto que segue relevante até hoje. Sinalização não substitui um projeto arquitetônico legível, ela apenas complementa uma estrutura espacial que já faz sentido por si mesma.
Sinalização, arquitetura e o limite da solução gráfica
Muitos hospitais tentam resolver problemas de orientação exclusivamente por meio de placas e totens. Ainda assim, a pesquisa de Craig Zimring, referência em arquitetura de ambientes de saúde, chega a uma conclusão clara. Sinalização isolada tem efeito limitado quando o traçado arquitetônico é confuso. Segundo Zimring, corredores repetitivos, ausência de referências visuais e cruzamentos mal resolvidos anulam boa parte do esforço investido em comunicação visual.
Por essa razão, a organização sem fins lucrativos The Center for Health Design, referência internacional em projeto hospitalar baseado em evidências, chega a uma recomendação clara. A equipe de projeto precisa incorporar o wayfinding desde o estudo preliminar. Isso inclui decisões como a hierarquia dos acessos e a diferenciação visual entre alas. Inclui também a criação de marcos internos que funcionem como pontos de referência natural, sem depender apenas de texto.
Da mesma forma, o pesquisador John Zeisel, em “Inquiry by Design”, defende uma ideia semelhante. Para ele, o comportamento humano no espaço construído revela falhas de projeto que nenhuma sinalização adicional corrige por completo. Um hospital bem projetado, portanto, precisa de menos placas, não de mais.
Wayfinding hospitalar, legibilidade espacial e o olhar Pezzette Loro
A Pezzette Loro trata a legibilidade espacial como parte estrutural do projeto hospitalar, não como camada aplicada depois da obra pronta. Essa abordagem complementa a discussão já feita no artigo O que é arquitetura hospitalar e qual a sua importância, publicado anteriormente neste blog. Além disso, ela está detalhada na página de Arquitetura Hospitalar do escritório.
Vale destacar que esse recorte se diferencia do artigo já publicado sobre Alzheimer e wayfinding, focado em pacientes neurológicos. Aqui, por outro lado, o foco recai sobre o público geral de um hospital de grande porte: visitantes, acompanhantes e equipes em trânsito constante entre alas.
Pendência para o time: se houver um projeto hospitalar do portfólio com dados públicos sobre setorização, sinalização ou fluxo de circulação, vale citá-lo nominalmente aqui. Nesse caso, o padrão pode seguir o já usado no artigo sobre a Sicredi Vanguarda.
Para acompanhar novas reflexões sobre arquitetura hospitalar e legibilidade espacial, vale seguir as atualizações mensais do Blog Pezzette Loro.
Recomendações de leitura sobre o tema:
- Kevin Lynch | A Imagem da Cidade;
- Romedi Passini | Wayfinding in Architecture;
- Paul Arthur, Romedi Passini | Wayfinding: People, Signs, and Architecture;
- Jean Wineman Carpman, Myron Grant, Walter Simmons | Design That Cares: Planning Health Facilities for Patients and Visitors;
- Roger Ulrich | A Review of the Research Literature on Evidence-Based Healthcare Design;
- John Zeisel | Inquiry by Design;
- The Center for Health Design | Evidence-Based Design Resources.
